Fatores Internos e Externos Explicando o Fracasso e o Colapso do Talebã

 

 

 

Fatores Internos e Externos Explicando o Fracasso e o Colapso do Talebã

 




O Dr. Perwez Shafi, do Instituto de Pensamento Islâmico Contemporâneo em Karachi, discute as razões do fracasso do Talebã no Afeganistão


Depois de suportar quase 2 meses de bombardeio americano, o repentino e quase colapso total do Talebã no Afeganistão no último mês deixou muitos muçulmanos profundamente desapontados, especialmente no Paquistão.

A discussão se foi uma vitória militar ou (como alega o Talebã) uma ‘retirada estratégica’ antes de apresentarem um desafio sério às forças americanas e da Aliança do Norte terminou logo depois da queda de Candahar. A vergonha foi que, enquanto os mujahideen não-afegãos estavam dispostos a lutar e morrer em todos os ‘fronts’, os talebãs afegãos comuns estavam ocupados negociando sua rendição.

No último dia, 6 de dezembro, enquanto mulá Omar estava exortando todos os talebãs a lutar até o último homem, ele próprio estava ocupado planejando sua escapada.

Sementes da Anarquia e da Guerra Civil Durante o Jihad Afegão

Por 3 ou 4 anos depois da invasão soviética em 1979, afegãos comuns lutaram bravamente com suas poucas e antigas armas contra os invasores, com pouca ou nenhuma ajuda de fora. O erro fatal que os mujahideen afegãos cometeram foi passar o comando de seu jihad para a CIA, através do procurador local dos EUA, o Serviço de Inteligência do Paquistão (ISI).

O interesse maior dos EUA, claro, era minar os russos como vingança por sua derrota no Vietnã. Mas outro interesse de longo termo dos EUA era assegurar que os mujahideen permanecessem divididos, e que nenhum grupo fosse grande e poderoso o suficiente em termos políticos e militares para prover um governo islâmico estável e unificado se a União Soviética fosse derrotada.

Através da ISI, a CIA tomou o comando e planejamento do jihad, e implementou sua política de divisão por vários meios: controlando e manipulando o suprimento de armas e munição, dividindo os mujahideen em pequenos grupos que então formavam seus próprios partidos políticos, ditando quem lutaria em cada área, e interferindo com suporte logístico, suprimentos de comida e vestimenta, e trocas de informação entre os mujahideen. Os EUA se asseguraram de que isto arruinaria os frutos dos esforços dos mujahideen, enquanto plantavam as sementes da anarquia e guerra civil futuras.

Os mujahideen falharam completamente em diferenciar entre um amigo e um inimigo do Islã fingindo ser amigo e bem intencionado por suas próprias razões egoísticas. Aceitar ajuda em uma situação desesperada de um aliado dúbio e com interesses próprios é uma coisa, passar o controle completo do jihad é outra. Este erro se mostrou fatal.

O que os EUA planejaram foi exatamente o que aconteceu após a vitória dos mujahideen contra a União Soviética. Vários grupos de mujahideen lutaram primeiro contra e venceram os remanescentes do regime comunista, e depois prosseguiram lutando entre eles. Eles sofreram no fogo da anarquia e da guerra civil, enquanto os EUA olhavam de uma distância confortável.

Duas conseqüências não previstas desta política emergiram, entretanto, que trabalharam contra os EUA. A primeira foi que, após a vitória sobre a União Soviética, muitos dos mujahideen estrangeiros, que tinham lutado lado a lado com seus irmãos afegãos, retornaram às suas terras natais e começaram a lutar contra seus próprios governantes ilegítimos e repressivos, e fantoches dos EUA.

Do Egito às Filipinas, indivíduos e organizações se tornaram ameaças sérias aos seus governos locais e aos interesses americanos no mundo. Em 1993 uma bomba explodiu no World Trade Center em Nova Iorque, um símbolo da América capitalista. O fogo iniciado pelos americanos no Afeganistão tinha alcançado seu próprio solo, e começado a queimar lá também. Isto causou pânico entre as elites americanas. Eles reavaliaram sua política de deixar a anarquia e a guerra civil no Afeganistão. Os interesses americanos agora tinham uma direção diferente. Os americanos queriam criar uma nova milícia ou organização grande o suficiente para dominar o Afeganistão e controlar a guerra civil.

A maioria dos grupos e facções mujahideen tinham sido desacreditadas; era necessário criar um grupo novo que pudesse obter o respeito dos afegãos, e que fosse grande o suficiente militarmente para dominar a cena política e prover um governo relativamente estável. Isto supostamente terminaria com o uso do solo afegão como local de treinamento para mujahideen de outros países.

Pressão adicional por um governo relativamente estável foi exercida pelas companhias americanas de óleo e gás, que por volta de 1994 não estavam muito interessadas em dominar e explorar os campos de óleo e gás da Ásia Central, mas queriam assegurar rotas de acesso para os mercados mundiais. O Afeganistão se localiza em uma destas rotas. Entretanto, este sonho não poderia ser realizado enquanto a luta continuasse.

Então os interesses políticos e comerciais americanos impulsionaram seu governo a mudar a política de estimular a guerra civil contínua. Para atingir estes objetivos os EUA encarregaram o serviço secreto paquistanês com a tarefa de criar um grupo militarmente capaz de implantar um governo estável e garantir as rotas favoráveis de óleo e gás.

O Estabelecimento do Talebã

A parceria da CIA com o serviço secreto paquistanês criou o Talebã, que veio à cena em setembro de 1994 e foi apoiado totalmente. Antigos oficiais do serviço secreto revelaram que eles tiveram que decidir entre mobilizar uma força de pashtuns religiosos ou seculares. Eles decidiram usar pashtuns religiosos por causa de uma série de vantagens que eles ofereciam sobre os pashtuns seculares. Eles tinham suas próprias motivações e eram apoiados por partidos religiosos, grupos e madrassas no Paquistão. O sectarismo se tornou a doutrina principal da ideologia do Talebã.

Repentinamente estudantes afegãos no Paquistão estavam pilotando MIGs, dirigindo tanques e se tornando especialistas em artilharia pesada (o que requer meses, se não anos, de treinamento).

Mesmo que se deixe a imaginação livre ao extremo e se assuma que de alguma forma o Talebã obteve todas as suas armas da era soviética, o Talebã precisava de milhares de galões de petróleo diariamente para manter tudo isto. O Afeganistão não é conhecido por ter produzido óleo e gás em quantidades significativas. O apoio dos EUA e do Paquistão eram evidentes desde os primeiros dias do Talebã.

De forma semelhante, as vitórias militares do Talebã foram surpreendentes. Era inacreditável que os mujahideen que derrotaram as forças da União Soviética estivessem repentinamente fugindo tão rápido quanto possível, ou aceitando a dominação do Talebã com pouca resistência. Cada milícia tinha o seu valor, e uma vez que o preço era pago, eles faziam o que lhes era dito.

O serviço secreto paquistanês controlou e manipulou quase todas as milícias rivais, que eram compradas ou ameaçadas, abrindo caminho para as vitórias do Talebã. Militares e oficiais aposentados do serviço secreto paquistanês apoiaram ativamente e conduziram missões militares para o Talebã.

Isto cumpriu o objetivo maior dos EUA de substituir um grande número de pequenas milícias e grupos lutando entre si com uma única milícia dominando o país inteiro, astutamente disfarçada com credenciais islâmicas. Embora eles próprios espertamente não reconhecessem o Talebã, os EUA sustentaram ‘o governo islâmico sunita’ do Talebã enquanto rotulavam o Irã islâmico de estado ‘xiita’. Criando um ‘estado sunita islâmico’ sectário no Afeganistão, em contraste e competição com o ‘estado islâmico xiita’, os EUA estavam espertamente matando dois pássaros com uma única pedra.

A esperança americana era de que os sunitas do mundo se voltassem para o modelo de um estado islâmico sunita sectário do Talebã, ao invés do modelo revolucionário do Irã de Estado Islâmico.


A Ruptura na Relação EUA-Talebã

A partir de 1996 o governo americano tinha uma boa relação com o regime talebã, que fez esforços consideráveis para promover os interesses de seu mestre. Não haviam temas sobre os quais os EUA e a liderança do Talebã tivessem maiores diferenças, apesar da retórica ocidental usual sobre as mulheres e os direitos humanos.

O tema que fez surgir tensões em uma atmosfera inicialmente amigável foi Osama Bin Laden. Osama tinha uma agenda mais internacional que os limitados talebãs, e sua mudança para o Afeganistão foi um arranjo conveniente para ele e para o Talebã.

Com Osama e seus recursos financeiros, a política estrangeira afegã se tornou mais independente do serviço secreto paquistanês e da CIA. A amizade entre o Talebã e a CIA ficou significativamente afetada quando as embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia explodiram em agosto de 1998. Os EUA acusaram Bin Laden de planejar os incidentes, sem oferecer nenhuma evidência ou prova. Os EUA exigiram que o Talebã lhes entregasse Osama, o que eles recusaram.

A destruição do World Trade Center forneceu a oportunidade perfeita para culpar Osama, o Talebã por dar-lhe refúgio, e atacar o Afeganistão, independente de quem foi o verdadeiro responsável, que pode nunca vir a ser conhecido.


As Limitações do Talebã

A diferença entre um verdadeiro líder islâmico e um que põe uma vestimenta islâmica temporariamente se fez clara. Enquanto mulá Omar exortava outros talebãs a lutarem até o último homem, ele próprio estava ocupado negociando sua fuga. Depois de passar o comando para uma shura, ele discretamente fugiu, provavelmente fazendo um acordo separado com a Aliança do Norte.

Isto deixou todos os talebãs comuns e seus aliados estrangeiros entregues às misericórdias dúbias da selvagem Aliança do Norte e das forças americanas.

Mulá Omar, quando o momento da shahada chegou, expôs suas cores verdadeiras fugindo.

Este é o destino daqueles que chegam ao poder não pela promessa de Allah, mas graças à CIA, serviços secretos ou outras agências dos inimigos do Islã, e que constroem as fundações de um governo ou estado baseadas no sectarismo.

Muitos muçulmanos estão desapontados com a derrota do Talebã porque eles confundem o assunto: se opor as políticas americanas e seu ataque no Afeganistão não significa automaticamente apoiar o Talebã, assim como a oposição à ocupação americana na península árabe não significa necessariamente suporte para a ilegítima monarquia saudita. É a tragédia contínua dos muçulmanos de que aqueles que levantam a bandeira do Islã para lutar contra os poderes de taghuti e opressores são geralmente subornados por eles.

Apesar de tudo, existem sinais em todo o mundo de que os muçulmanos estão se tornando mais assertivos e imbuídos com o espírito do jihad, independente de quanto o ocidente tente igualá-lo com terrorismo, como o único meio de liberar as terras muçulmanas e (mais criticamente) as mentes muçulmanas das garras do ocidente.

Mas nós precisamos lembrar que o jihad não é limitado apenas à guerra; seus outros componentes, particularmente o intelectual, são igualmente importantes, de fato críticos, para oferecerem um desafio efetivo à hegemonia ocidental e exploração de nossos pensamentos e percepções.

Portanto, os eventos no Afeganistão e Palestina servem para diferenciar causas, líderes, aliados e movimentos islâmicos genuínos, daqueles que por propósitos oportunistas tentam adotar uma vestimenta islâmica.

Este processo de refinação irá, Insh’Allah, fortalecer gradualmente o movimento islâmico em todo o mundo.

 

Texto: Tradução de versão editada do artigo "Internal and External factors explaining the failure and collapse of the Taliban", que pode ser lido na íntegra em inglês no endereço http://muslimedia.com/taleb-coll.htm 

Este artigo foi utilizado com a permissão dos editores do site Muslimedia.

 

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