Porque não pregar contra o Ocidente

 

 

Por Que Não Pregar Contra o Ocidente?



 

Gostaria de pedir a você, leitor, que leia com atenção estes pequenos trechos abaixo:

“As fases singulares da sua existência não são, talvez, períodos sucessivos de uma moléstia grave, mas são, com certeza, resumo abreviado dos aspectos predominantes de mal social gravíssimo. Por isto o infeliz, destinado à solicitude dos médicos, veio, impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma civilização, indo para a História como poderia ter ido para o hospício. Porque ele para o historiador não foi um desequilibrado.  Apareceu como integração de caracteres diferenciais - vagos, indecisos, mal percebidos quando dispersos na multidão, mas enérgicos e definidos, quando resumidos numa individualidade.”

“Era o profeta, o emissário das alturas, transfigurado por ilapso estupendo, mas adstrito a todas as contingências humanas, passível do sofrimento e da morte, e tendo uma função exclusiva: apontar aos pecadores o caminho da salvação. Satisfez-se sempre com este papel de delegado dos céus.” “... E surgia (...) o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que se apóia o passo tardo dos peregrinos...”

“Era o lugar sagrado, cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito.”

“Na cadeia ali paradoxalmente instituída - (...) - viam-se diariamente, presos pelos que haviam cometido a leve falta de alguns homicídios os que haviam perpetrado o crime abominável de faltar às rezas.  “O uso da aguardente, por exemplo, era delito sério. Ai! dipsomaníaco incorrigível que rompesse o interdito imposto!” “ A lei do cão...Este era o apotegma mais elevado da seita. Resumia-lhe o programa. Dispensa todos os comentários.”

É uma descrição do Afeganistão de hoje? Um perfil de Mohammad Omar, líder do Talebã? Uma descrição de Ossama Bin Laden?  Não, são trechos de Euclides da Cunha, descrevendo Canudos e Antonio Conselheiro. Mas este artigo tem outros propósitos além de demonstrar que o fanatismo e o extremismo pode surgir em qualquer meio, ou de endossar pretensas teorias racistas do escritor. Tampouco tem a intenção de pregar a modernização para aquela região desolada.

Um dos objetivos é tentar ajudar as pessoas a compreender algumas coisas simples, a tentar entender como posições tão extremadas podem ser capazes de agitar as massas, como pode se gerar tamanho ressentimento contra a Civilização Ocidental. E se Euclides da Cunha cometeu muitos erros - afinal era homem de seu tempo e dos conceitos e preconceitos deste tempo - ao menos em algo fez um diagnóstico que parece bem correto.  

Em primeiro lugar os sertanejos de Canudos eram os deserdados de qualquer regime, incapazes de compreender um sistema político importado que não resolvia, e às vezes piorava, seus problemas. Um sistema artificial que com violência substituía seus referenciais já distantes por outros, falsos e ainda mais incompreensíveis. Enfim substituía uma Monarquia Constitucional - tolerada porque existia uma vaga noção do que seria um rei - por uma República - totalmente estranha e alienígena.  

Jogados em brigas de latifundiários onde morriam às vezes sem nem saber porque, os jagunços e sertanejos talvez entendessem melhor que nós porque os afegãos parecem ter preferido a ditadura Talebã e sua tenebrosa promessa de paz e ordem, ao caos reinante antes. Mesmo os cruéis cangaceiros ganharam reputação por punir estupradores e assassinos...  

Como não se esperar que tantos muçulmanos não odeiem ao Ocidente, que desestrutura suas sociedades, em nome de quem se erguem ditaduras e oligarquias, que lhes desordena o mundo sem oferecer nenhuma outra ordem em troca, que lhes atiça os conflitos intestinos estimulando a guerra? 

Que lhes tira as riquezas, lhes aguça o apetite pelos bens de consumo, mas em geral só lhes dá miséria e desejo? 

Não é fácil arrumar inimigos para o Ocidente em nações para as quais este deus ciumento pede que seja entregue tudo, mas nada entrega em troca.

A conclusão, enfim, fica também por conta de Euclides da Cunha:

“Eram, realmente, fragílimos  aqueles pobres rebelados...Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain [metralhadora]; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador - a bala.”

 

Texto de Alexandre Gomes (Hilal Iskandar), jornalista, convertido ao Islã em janeiro de 1995.

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