Um Estudo Para A Compreensão da Autoridade e Abuso de Poder nos Casamentos Islâmicos

 

 

Mitos e Realidades do Casamento no Islã

 

 

 

Um Estudo Para A Compreensão da Autoridade e do Abuso de Poder nos Casamentos Islâmicos

 

 

"E entre Seus sinais está o de que Ele criou para vós companheiras da mesma espécie para que com elas convivais; e vos vinculou pelo amor e pela piedade. Por certo nisto há sinais para os sensatos."

(Alcorão surata 30:21)

"Ninguém honra as mulheres exceto aquele que é honrado, e ninguém as despreza exceto aquele que é desprezível."

(Hadith do profeta Muhamad (SAWS))

O versículo e dito profético acima - e muitos outros além destes - formam como que uma parte quase que natural de nosso repertório de conhecimento islâmico. Por que e como estes imperativos divinos e sublimes foram esquecidos na sociedade islâmica contemporânea? Este estudo tentará explorar as causas mais fundamentais que motivam a condição estarrecedora das mulheres em nossa sociedade. Durante o processo tentarei também mostrar que é quase impossível desvincular o que ocorre na sociedade como um todo das especificidades de  áreas particulares de interesse. O macro, em outras palavras, está intrinsicamente vinculado ao micro.  Os tratamentos sintomáticos já não são bons o suficiente. Outro objetivo fundamental seria examinar, a partir de uma perspectiva islâmica, o estado presente da casa do Islam em si - ao invés de percepções  não- islâmicas e orientalistas e prejuízos ao Islam que são em sua maioria lenda. Devemos olhar para a maneira no qual temos construído esta casa e o modo no qual nos percebemos dentro dos parâmetros mais amplos deste terreno.

De muitas formas o casamento, como uma instituição, representa um microcosmo do que de fato está acontecendo nos aspectos sociais e culturais da vida da sociedade islâmica (macro). O Islam do século 20 tem sido acidentado - aquele que não apenas tem conhecido momentos isolados de glória mas também momentos de tensão extrema e animosidade, e , às vezes, até perversidade. Os desafios, exigências, e tarefas do mundo contemporâneo que nos confronta são imensos e variados. Nossas respostas a tudo isto, embora não sendo exatamente imensa, têm sido igualmente variadas. Entretanto, os fatores que precipitaram estes desafios precisam ser analisados. Na opinião dos estudiosos tão divergentes em suas abordagens quanto Seyyed Hossein Nasr (1993: 118) e Akbar S. Ahmad (1988: 185) o impacto do colonialismo, derivando-se a partir dos dias da renascença, não podem ser ignorados ou mesmo subestimados. Nasr posiciona o despertar dos muçulmanos às realidades do poder e dominação européias à captura do Egito por Napoleão Bonaparte em 1798. 

Este despertar foi rude e confuso. Ao invés de vir acompanhado por uma consciência crítica destes fatores (tais como complacência e corrupção política, por exemplo) que levou à nossa decadência ou declínio,  gerou um espírito de conflito mutuamente destrutivo raramente conhecido nesta escala na história do Islam. Além disso, embora conflitos dentro do mundo muçulmano tenham ocorrido antes, ocorreram em um contexto onde os muçulmanos desfrutavam - como líderes mundiais - a confiança necessária para absorver as influências potencialmente disruptivas inerentes em qualquer conflito. Com a nova ordem colonial emergente, entretanto, e sua confiança em frangalhos após ser considerado inadequado a participar nesta ordem até dentro dos perímetros de suas próprias habitações, o prognóstico parecia ruim.

 Por volta do século 20 três amplos  - e mutuamente hostis - ramos do Islam haviam emergido. Existia o movimento neo-Karijita de "takfir" com roupagem do Wahabismo e seu parceiro antagonista, o movimento rigorista Tabligh. Existia também o movimento milenialista dos Mahdis  com promessas de liberação e salvação para a "Ummah".  Finalmente tinha também o movimento apologético modernista que via a transferência de tecnologia e todos os  outros recursos da era moderna para o Ocidente como um sinal da insatisfação de Deus com os muçulmanos. Através do retorno ao Alcorão e a "Sunnah" (nos termos deles) se supunha, que poderíamos mais uma vez reaver nosso camelo perdido. Sob todo este caos, entretanto, o Islam Tradicional se movia vagarosamente - embora com incerteza e trepidação - nas "khanaqahs", "ribats", e "zawiyas" da vasta maioria silenciosa. A característica mais desconcertante de tudo isto era o fato de que por esta época todos os elementos de uma comunidade infectada com um alto potencial para violência estrutural interna foram desenvolvidos. Com a despossessão veio a pobreza, um alto grau de insegurança, uma auto-imagem degradada, e outras formas de inferioridade incapacitantes.

Qual o significado de tudo isto em relação à idéia de "mitos e realidades do casamento no Islam"?

É quase um axioma sociológico que entre as comunidades despossuídas, empobrecidas e em desvantagem a incidência da violência e dominação do considerado como "mais fraco" são muito maiores do que nas comunidades com maiores vantagens e economicamente seguras. A partir dos escombros de identidades destruídas, mitos (no significado popularmente compreendido do termo) tem uma chance maior de emergir e serem aceitos como realidades. Esta resposta pode ocorrer se o grupo dominante ou opressor é uma entidade imaginária ou real. No grupo do imaginário podemos colocar o David Koresh de nosso tempo e no outro os Mahdis do Islam do passado. O que nos interessa aqui, entretanto, é a extensão desta elaboração de mitos como um produto de circunstâncias sociais dentro da unidade familiar do Islam e particularmente com relação à condição das mulheres como esposas na vida conjugal.

"Que fator, que catástrofe, teve lugar para alterar a condição das mulheres tão dramaticamente?" Akbar S. Ahmad pergunta (1988:185). Ele elabora esta questão particularmente à luz do fato de que as condições sociais das mulheres eram muito mais favoráveis durante os anos iniciais do Islam. A resposta que ele fornece, e mencionada previamente, reside no colonialismo. Enquanto isto pode não ser verdade se entendido em um sentido exclusivo - e discutirei isto posteriormente de novo - existe entretanto uma grande parte de verdade por trás da afirmação de se considerar o colonialismo como um cúmplice no processo. Como um muçulmano com uma experiência sul-africana de um sistema de "apartheid" demoníaco, tendo entretanto a concordar em um contexto mais amplo. Minha concordância é baseada na opinião de que em quase todas as sociedades oprimidas e em desvantagem duas questões importantes mas mutuamente interligadas surgem, nominalmente, as questões de poder e autoridade. Embora estejamos conscientes de que estes elementos estão abertos ao abuso em qualquer sociedade eles são maiores em condições sociais vulneráveis de privação social e econômica. Os homens, em sua situação de reclusão tendem não apenas a procurar a segurança do ambiente doméstico mas também uma autoridade e poder através do qual possam redimir sua baixa auto-estima. A autoridade que é imaginada e construída sob estas condições é a que vem acompanhada de um senso de privilégio. A sobrecarga de ter que assumir autoridade com um senso de dever e responsabilidade é muito grande para um ego frágil e inseguro. E onde a noção de privilégio domina existe um potencial muito maior para o abuso de poder. 

A este respeito a África do Sul e a brutalidade trazida pelo "apartheid" é um caso clássico. As mulheres negras na África do Sul foram as piores vítimas da violência estrutural engendrada pelo "apartheid" e o empobrecimento e as condições sub-econômicas com que tinham que lidar. Até hoje a África do Sul tem um dos mais altos índices de estupros no mundo (Agenda no. 36, 1997:3). O índice de maus tratos contra a esposa nestas comunidades é raramente melhor. Durante a maior parte dos anos brutais de colonialismo as condições globais dos muçulmanos não eram muito diferentes daquelas vividas pelas vítimas do "apartheid". Foi um "apartheid" em grande escala.

Embora o estupro talvez não tenha sido um tema maior no mundo islâmico, os fatores que levaram ao abuso de poder no nível doméstico eram precisamente os mesmos que levaram ao abuso nos lares das massas oprimidas da África do Sul. Com os muçulmanos destituídos de sua liderança mundial, novos rumos de dominação e liderança foram estabelecidos. A família, como mencionamos anteriormente, foi a vítima desafortunada. Mas para ser justo, a redução na condição honrada dada às mulheres pelo Islam tinha começado bem antes do colonialismo. Durante os últimos dias de uma  dinastia Abássida enfraquecida o crescente despotismo, hedonismo, materialismo e formalismo rígido da Lei Islâmica tinha começado a ter um impacto na ampliação das disparidades entre homens e mulheres destas sociedades. O colonialismo entretanto forneceu o espaço para a cristalização final destas diferenças.

Enquanto o impacto total desta cristalização fazia sua marca, os homens não sofreram dramas de consciência em se apresentarem como inerentemente, ou até divinamente, superiores. As noções de superordinação e subordinação baseadas em sexo se enraizaram como normas e valores da sociedade muçulmana. O resultado de tudo isto é o estado chocante das mulheres muçulmanas em muitas sociedades islâmicas hoje. Elas são maltratadas, psicológica e emocionalmente, em nome de uma concepção supostamente divina de autoridade privilegiada. E ninguém sofre mais do que as esposas nas mãos de seus maridos despóticos. Esta é a condição que levou um destacado autor de Direitos Humanos a observar que "Em muitos dos estados islâmicos, o paternalismo permanece forte e provoca resistência cultural aos direitos econômicos e sociais que pretendem assegurar igualdade entre homens e mulheres incluindo acesso igual à educação, pagamento igual para trabalho igual, e acima de tudo igualdade nas leis de herança que afetam severamente o direito de propriedade. A manutenção da lei da "Shariah", em conflito com as leis internacionais de direitos humanos, constitui um dos maiores desafios aos direitos humanos universais de nosso tempo" (Asbjorn Eide 1995:21). Enquanto Eide (como muitos outros intelectuais seculares) podem ser desculpados por sua ignorância da lei da "Shariah" em relação às mulheres, suas observações sobre as mulheres muçulmanas na sociedade islâmica contemporânea é muito apurada. 

Permanece entretanto - e apesar das observações e críticas de outros - o dever sagrado dos muçulmanos de reescavar e revelar a verdade sobre a condição das mulheres no Islam. Mas deixe-nos retornar ao tema da autoridade privilegiada e do abuso na vida conjugal. À luz do fato de que o Islam assegurou a igualdade de todos os seres humanos em seus níveis mais essenciais, o espiritual e o intelectual, outras noções entretanto tinham que ser construídas para sustentar o mito da superioridade inerente e autoridade privilegiada. Duas noções baseadas em minha experiência pessoal e extensas discussões com pessoas igualmente preocupadas surgiram à serviço desta concepção errônea. Elas são, posso acrescentar, assustadoramente comuns na sociedade muçulmana da África do Sul. São as noções de "Qada" e "Qadr" (determinismo e predestinação), e "Sabr" (paciência). Um número de líderes, conselheiros religiosos e até pais na África do Sul - e eu acredito em todo lugar no mundo muçulmano também - aconselham as mulheres maltratadas com estas duas noções. Seu sofrimento nas mãos dos maridos tiranos é um resultado dos decretos de Allah e portanto devem ser aceitos com a paciência esperada de mulheres religiosas e obedientes. Para acrescentar insulto à injúria elas são frequentemente aconselhadas que sua decretada desgraça é resultado de suas negligências em executar as doutrinas da "Shariah". 

A pergunta que eu tenho a fazer é simples: Quantas perversões mais nós como a "ummah" (nação) de Allah e Seu Profeta Muhamad (SAWS) pretendemos tolerar? Podemos da mesma forma esperar que os bósnios, palestinos, chechenos e outros entre os setores oprimidos do mundo muçulmano aceitem suas condições com noções igualmente fatalistas de "Sabr" (paciência). Não são apenas os direitos das mulheres que sofrem sob estas contradições mas também outras doutrinas básicas do Islam. É esperado de nós que esqueçamos as diretivas proféticas de que 

"aquele que vê uma abominação deve mudá-la com suas mãos, e se ele não puder então que se oponha com sua língua, e se não puder que então ele a rejeite em seu coração". 

 A "Qada" e "Qadr" (determinismo e predestinação) de Allah se tornaram agora as ajudantes daqueles que desejam perpetuar os instrumentos de opressão que podem eminentemente ser mudados por nossas "mãos" e "línguas".  Mas então Allahu Ta'ala (Allah o Altíssimo) não mudará a condição de um povo até que eles mudem a si mesmos. E compete a nós não esquecer que Allah não mente.  

Dizer a esta altura que as atitudes dos homens muçulmanos são produtos de circunstâncias sociais frustrantes e portanto não devem ser considerados responsáveis por suas condições creio que para isto minha resposta é simples. Ao contrário de outros sistemas feitos pelo homem, possuímos o imutável exemplo de nosso Profeta para o qual devemos permanentemente retornar em nossos momentos de necessidade. Não pode haver desculpa para mau comportamento no Islam a menos que escolhamos dar nossas costas ao Profeta. Ignorância, entretanto, é algumas vezes perdoável.

Mais especificamente, pode uma religião que afirma 

"As mulheres são vossas vestimentas como os homens são vestimentas para as mulheres"       (Alcorão 2:187) 

considerar as mulheres como agentes de Satanás? Pode uma religião que afirma que homens e mulheres nasceram da mesma substância (Alcorão 4:1), esquizofrenicamente considerar as mulheres como intrinsicamente inferiores? Pode uma religião que afirma que nenhum homem honra as mulheres exceto aquele que é honrado, e que de maneira oposta, nenhum homem despreza as mulheres exceto aquele que é desprezível, ser um modelo de chauvinismo e misoginismo? Mais pertinentemente, pode a fonte primária de tal religião ser uma fonte de desdém com as mulheres?

O Islam garantiu às mulheres direitos  sem precedentes - sem precedentes incluindo uma grande parte do século 20 ocidental e outras sociedades seculares. Mulheres ocidentais de acordo com Pickthall "tiveram que lutar... por simples direitos legais, tais como o da mulheres casadas adquirir propriedades ...[e]...obter reconhecimento de sua existência civil e legal, que foi sempre reconhecida no Islam" (1979:166) Ela tem o direito à propriedade, direitos exclusivos sobre seu patrimônio, direito a pagamento igual para trabalho igual, o direito a "mut'a" (ou compensação) no divórcio, o direito a igualdade social e oportunidades educacionais, o direito ao serviço militar, o direito a resistir ao casamento forçado, o direito de terminar um casamento com uma marido abusivo, etc. E todos estes direitos emanam do exemplo estabelecido pelo nosso Profeta Muhamad (SAWS) cuja natureza e caráter de acordo com Aisha era de fato o Alcorão (kana khuluquhu al-Quran).

Foi à luz destes direitos dados por Deus que o Imam al-Ghazali, por exemplo, afirmou o direito da mulher se separar incondicionalmente de um marido abusivo - independente de ser um abuso físico ou psicológico ( e notem o quanto raramente nós "modernos" mencionamos o abuso psicológico).  Neste caso os serviços de uma terceira parte - um "thiqa" ou pessoa de confiança como Ghazalli chama a ele ou a ela - pode ser usado para monitorar o comportamento do marido. A decisão final com relação à reconciliação entretanto permanece com a esposa (Shirbini Vol 3: 260).

Todavia, antes de ficarmos idealizando o nosso passado,  temos que nos lembrar que houve momentos em nossa história, que evidenciam o fato de que as mulheres em geral, e as esposas em particular, nem sempre foram percebidas com a mesma visão profética esclarecedora e liberalizante de Muhammad (SAWS). No entanto, naquela época, ironicamente o papel do homem como marido era visto com muito mais clareza do que atualmente. O papel como líderes de suas famílias era percebido como o de um agente exercendo uma "função". O papel do agente seria julgado incompatível com as exigências do "ofício" se ele não conseguisse satisfazer seus deveres, responsabilidades e condições.

Um exemplo clássico de disciplina com relação às ofensas contra o "ofício" é dado pela decisão de Syedna 'Umar (RA) de permitir a declaração de 3 tallaaqs (pronunciamento de divórcio) em um único pronunciamento se igualar a  3 tallaaqs ao invés de 1 tallaq, como no tempo do Profeta (SAWS)  e de Syedna Abu Bakr (RA). Seu raciocínio era claro. Os homens tinham começado a abusar  em questões tais como o modo de instituir o divórcio - questões as quais outros, antes deles, já tinham tratado com a necessária consideração devida a todos os assuntos de seriedade e importância. Enquanto há uma tempestade de debates em torno da decisão de Syedna Umar, sou inclinado a concordar com Sana'ani que sua decisão foi o produto de sua "ijtihad", ou exercício criativo do intelecto, a fim de disciplinar um indesejado grau de frivolidade masculina (Sana'ani 1998, vol 3, pp 328-321). Infelizmente, hoje, tanto o papel dos homens como o das mulheres são tragicamente mal interpretados. Mais trágico ainda é o fato de que eles são distorcidos de uma forma obscena em favor dos homens.

As consequências ilegítimas desta incompreensão são muitas:

  Espera-se agora das mulheres que obedeçam incondicionalmente a seus maridos.

 Nafaqa (suporte financeiro) é um favor concedido pelos maridos e não um dever.

  A voz das mulheres é considerada "awrah", proibida de ser ouvida.

  As mulheres têm que cozinhar.

  Devem ser fatalisticamente pacientes com os abusos físicos e psicológicos.

  As mulheres não podem trabalhar.

  Elas não só valem a metade dos homens mas, na verdade, são meio seres humanos.

  A disponibilidade sexual incondicional é um dever - 25 horas por dia.

A lista é interminável.

Para cada uma dessas e outras expressões da loucura chauvinista, uma quantidade de versículos corânicos e ditos proféticos são produzidos - dentro do espírito literalmente masculino - para amparar seus pontos de vista. Paradoxalmente, na maior parte dos casos, os textos que eles mencionam são os que mais necessitam de interpretação e esclarecimentos adicionais. O texto corânico mais problemático para muitas mulheres é aquele onde Deus declara:

 "Quanto àquelas, de quem suspeitais deslealdade, admoestai-as (na primeira vez), abandonai os seus leitos (na segunda vez) e castigai-as (na terceira vez); porém, se vos obedecerem, não procureis meios contra elas." (Alcorão 4:34)

De início, é bom que nos lembremos de que o Alcorão é o último documento no qual poderíamos esperar escorregadelas de qualquer espécie. Em sua diversidade de expressão é onde o verdadeiro espírito da liberdade divina se encontra. É dentro desse espírito que o Alcorão se dirige, de forma pragmática, à natureza física, espiritual, intelectual, emocional, psicológica e até biológica da humanidade. O versículo, no entanto, não pode ser usado para amparar projetos chauvinistas medíocres ou para confirmar noções de autoridade masculina privilegiada. E tem que ser assim, por uma série de razões.

Primeiro, o versículo supõe, simultaneamente, a completa deslealdade e conduta vergonhosa por parte da mulher e completa inocência por parte do homem. Afinal de contas, um homem também pode ser "Nashiz" (rebelde ou de conduta repreensível) (Alcorão 4:128) . Por esta razão, o primeiro passo é adverti-la a fim de que ele possa, por esse meio, determinar se existe uma razão segura para o comportamento dela ou se ela está preparada para se modificar. Em ambos os casos, isso permite a ele retirar sua admoestação ou a agir em relação ao caso. (Husni 1347 AH : vol 2, p.42).

Em segundo lugar, não é permitido que a "batida" simbólica resulte em ferimento de qualquer espécie. De acordo com Ibn Abbas (RA), a batida não é permitida com qualquer coisa maior do que uma escova de dentes. Se a batida resultar em ferimento à sua pessoa, então a mulher tem o direito de levar o marido à corte, ainda que ela tivesse se comportado como uma farsante.

Em terceiro lugar, de acordo com Abu Zahrah, há uma escola de pensamento que acha que, no caso do marido "Nashiz", a mulher pode levá-lo à corte e conseguir que o tribunal imponha exatamente a mesma punição a ele, de acordo com os passos traçados no versículo acima ('Abd al'Ati 1977 : 159).

Em quarto lugar, a posição preferida, apesar do versículo corânico, é não bater, muito embora a "surra" não seja pouco mais do que uma medida simbólica. Relata-se que "Ata ibn Abi Rabah disse 'Um marido não deve bater em sua esposa, mesmo depois que ele tenha ordenado ou proibido a ela fazer alguma coisa e ela tenha-se recusado a atendê-lo. É preferível do que ele extravase sua raiva ante a recusa dela, porque o Profeta (SAWS) disse: 'O melhor dentre vós é aquele que não se vale da surra' (Bayhaqi)" (Sabuni 1990 : Vol. 1, 447).

Em quinto lugar, e tendo em mente o nosso empenho para realizarmos o estado de M'aruf e Ihsaan em nossas vidas - seria melhor lembrarmo-nos sempre da afirmação de  Aisha de que o Profeta "nunca levantou sua mão para nada ou ninguém exceto quando lutava no caminho de Allah."

Contudo, apesar de nossa tristeza e até horror com a condição de algumas mulheres muçulmanas, não devemos seguir o caminho das Saadawis de hoje. Maimuna Quddus, em sua revisão do livro da Dr. Saadawi, "Duas Mulheres em Uma", observa que "Quem quer que tenha lido os periódicos do chamado movimento de libertação das mulheres na Inglaterra, nos quais a Dra. Saadawi muitas vezes escreve, ficará surpreso com as descrições de questões consideradas sagradas, em um estilo mais apropriado às pichações de paredes de banheiros ... (essas feministas) ... querem destruir a família, a religião e a sociedade com sua conclamação para o sexo livre, o lesbianismo, marxismo e qualquer outra insanidade moderna que elas imaginam" (Ahmad 1988 : 194) Nós, como muçulmanos, temos o Islam a nosso lado. E o Islam exige "adab" (educação) e respeito em tudo que fazemos. Na medida em que existem áreas de fraqueza em nossa "ummah", que exigem um grau de firmeza na abordagem, também devemos nos lembrar de que nossas convicções precisam ser acompanhadas de dignidade.

Concluindo, gostaria de dizer que, na medida em que temos um legado de jurisprudência do qual podemos nos orgulhar - eu, por exemplo, sou um  orgulhoso chafita  -  não obstante isso, cabe a nós trazer a mesma energia dinâmica para a interpretação e aplicação da Fiqh nos dias de hoje, os quais somos privilegiados por testemunhar em nosso passado grandes nomes como Imam Abu Hanifa, Imam Malik, Imam Shafi', Imam Ghazali e outros. Além do mais, é improvável - tivesse o espírito de Tabdi' e takfir dominado o caráter da principal corrente do Islam - que as ciências islâmicas, como 'Ulum al-Quran, Mustalah al-Hadith, Qawa'id Fiqhiyyah, Usul al-Fiqh e muitas outras, tivessem surgido como o fizeram.

Na verdade, o próprio Islam poderia ter sofrido o mesmo destino daqueles grupos extremistas extintos, que falavam em nome do Islam. Mas, a corrente principal do Islam sempre esteve lá. Mesmo durante seus momentos mais negros, quando movimentos novos dominaram a cena na virada do século XX, o Islam tradicional permaneceu firme, como repositório do verdadeiro espírito do Islam. Hoje, às vésperas do século XXI, este espírito está se reafirmando com confiança e força. No entanto, os desafios que os estudiosos  do Islam têm que enfrentar é apresentar o Islam de uma forma que satisfaça as necessidades da mente contemporânea. Temos que olhar para novos paradigmas, abordagens e metodologias. Incontestavelmente, um grande trabalho nessa direção está sendo feito por alguns de nossos exegetas contemporâneos. Mas necessitamos, dentro do espírito dessa conferência, de unificar nossos esforços para muito mais. Em outras palavras, necessitamos de uma sinergia maior. Acima de tudo, necessitamos do que eu chamaria de "uma nova iconoclastia". Ao invés de ficarmos falando da permissibilidade dos quadros e de suas pinturas, precisamos destruir aquelas falsas "imagens"  sociais, espirituais, intelectuais e ideológicas de nosso Din, que alienaram tantos de nossos muçulmanos do caráter liberador do Islam. Uma das falsas "imagens" - ou mitos, se preferirmos - é a noção de poder e autoridade nos casamentos islâmicos. Que melhor lugar para se começar do que na família.

Texto: "Myths And Realities of Marriage in Islam: A Study in the Understanding of Authority and the Abuse of Power in Muslim Marriages" do "sheikh" Seraj Hendricks.                             Este texto foi apresentado inicialmente na Conferência das Mulheres da 2ª Conferência da Unidade Islâmica Internacional, em Washington DC em 8 de agosto de 1998. Omni Shoreham. Hotel Blue Room. Também foi veiculado através do site islâmico Muslim Family Network de onde foi retirado e traduzido com permissão em parceria com Mônica Muniz. 

Para uma abordagem da condição de 'nashiz' do homem, visite neste site o artigo 

"Causas de Rebeldia (Nushooz) Que Podem ser Traçadas a Partir do Próprio Marido ou Seus Amigos"

Visite também o artigo "Mulheres Muçulmanas: Entre o Martelo e a Bigorna"

 

Fontes usadas pelo autor do texto

 

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