O Direito da Muçulmana ao Trabalho
 

 

 

O Direito da Muçulmana ao Trabalho


 

O direito da muçulmana ao trabalho é um tema controverso, mesmo em algumas comunidades islâmicas. A maioria dos teólogos e estudiosos muçulmanos não nega que a muçulmana tem direito de exercer uma atividade remunerada, mas geralmente condicionam este ato a "casos de necessidade", se restringindo neste aspecto à necessidade financeira. Como a responsabilidade pelo sustento da família no Islã recai exclusivamente sobre o homem, é considerado que o trabalho da mulher é de importância secundária. Pouca ou nenhuma consideração é dada às necessidades pessoais que a mulher eventualmente possa ter, de se aperfeiçoar e evoluir profissionalmente, aplicando na prática o que aprendeu na escola ou universidade.

É sempre enfatizado que a prioridade para a mulher muçulmana deve ser a família e que ela não deve, em nome de atividades profissionais, prejudicar o bem-estar de sua família. Esta é a razão porque o sustento da mulher no Islã é considerado um dever do marido, já que seria injusto que além das responsabilidades com a família em geral e com os filhos em particular, a mulher ainda tivesse o dever de trabalhar para ajudar no sustento da família.   Mas até que ponto isto justifica negar à mulher o direito REAL de trabalhar e restringi-lo apenas à necessidade financeira?  Khadija, a primeira esposa do profeta Muhamad (SAWS), era uma comerciante que exercia totalmente o direito que toda muçulmana tem de manter uma atividade econômica, sem que houvesse uma necessidade financeira para isto.

Nenhuma muçulmana observante de sua religião sacrificaria espontaneamente o bem-estar de sua família, mas parece que alguns teólogos muçulmanos simplesmente não acreditam que a muçulmana seja capaz de identificar e estabelecer sozinha tais critérios e decidiram estabelecê-los por ela. 

Por conta desta interpretação restritiva muitas muçulmanas têm, na prática, o direito ao trabalho que o Islã lhes garantiu, negado. Alguns estudiosos muçulmanos comentam que as feministas ocidentais quando se referem à pouca participação das mulheres em atividades econômicas nos países de maioria muçulmana, não estão levando em consideração a opção feita pelas muçulmanas de priorizar a família. Esta afirmação é correta e é preciso que não se caia no erro de considerar toda mulher que decide se dedicar inteiramente à sua família como oprimida, inútil ou improdutiva. O Islã reserva um lugar de respeito à mulher como mãe e esposa e deve ser dado a ela o direito de escolher se quer ou não exercer uma atividade profissional, sem que se exerçam pressões a favor de uma ou de outra situação. 

As sociedades não-muçulmanas em geral caem no extremo oposto, praticamente obrigando a mulher a sair de casa para trabalhar para que ela não seja vista como uma pessoa ultrapassada e sem perspectivas. Não importa se para isto ela tiver que sacrificar sua família e a si própria. Existem momentos na vida da mulher que ela precisa de um certo apoio e de ficar isenta de responsabilidades excessivas como por exemplo no período de amamentação de seu bebê ou quando seus filhos ainda são pequenos e muito dependentes de sua presença. Entretanto, no caso de muitas comunidades não-muçulmanas ela simplesmente não tem escolha. 

Por outro lado, nada impede que mesmo nestes momentos a mulher desenvolva atividades profissionais que não exijam o cumprimento de horários rígidos ou atividades externas. Nos dias atuais praticamente tudo pode ser feito com o auxílio de um computador e da Internet, isto sem falar nas ocupações artesanais tradicionais. Entretanto mesmo nestes casos é indiscutível que a mulher necessitará de tempo disponível para poder conciliar suas atividades domésticas e profissionais e esta conciliação se tornará virtualmente impossível se não houver cooperação na família. O conceito de opção ou escolha requer que seja dado à pessoa em questão liberdade total e condições para optar ou escolher, entretanto esta liberdade muitas vezes não existe tanto nas sociedades muçulmanas quanto nas não-muçulmanas.  

No caso de algumas comunidades islâmicas, existe uma forte pressão social para que a mulher sacrifique sua vida profissional pela família, baseada em grande parte nesta interpretação religiosa limitada.  Muitos maridos se esquecem do exemplo do Profeta (SAWS) que mesmo ocupado com responsabilidades extremas, ainda encontrava tempo para auxiliar suas esposas no trabalho doméstico, e sobrecarregam suas esposas com exigências muitas vezes absurdas. Os filhos em geral  seguem a mesma linha de comportamento e exigem da mãe atenção total mesmo quando já são adolescentes. Após tanta dedicação e esforço, é natural que não sobre tempo para que a mulher trabalhe fora de casa, daí a sua "opção" em não trabalhar.

É preciso evidenciar aqui que este comportamento não é islâmico e que o Islã não deve ser responsabilizado pelo mal entendimento ou comportamento dos muçulmanos. A idéia de que a muçulmana deve executar sozinha todas as tarefas domésticas  não é unânime no Islã. Algumas escolas de pensamento islâmico como a Chafita consideram tais tarefas responsabilidade do homem. Quando Aisha foi perguntada após a morte do profeta (SAWS) o que ele costumava fazer quando estava em casa e não estava em oração, ela respondeu: 

"Ele servia sua família: ele costumava varrer o chão e costurar suas roupas". 

Baseado neste fato, os juristas Chafitas defendem o direito da mulher de não executar o trabalho doméstico. O jurista sírio Ibn al-Naqib do século 14 afirmou: "Uma mulher não é obrigada a servir o marido assando, cozinhando, lavando ou através de qualquer outro tipo de serviço porque o contrato de casamento acarreta, da parte dela, somente a permissão para que o marido se associe sexualmente com ela e ela não é obrigada a nada além disso". No entendimento da Escola Chafita a execução espontânea das tarefas domésticas por parte da esposa, principalmente nos casos em que a mulher não trabalha fora, é vista como um ato de companheirismo e compreensão, atitudes indispensáveis para o sucesso de qualquer casamento, mas não como uma obrigação.

 Na escola Hanafita entretanto, estas atividades são consideradas deveres da esposa, mas determina que ela não deve ser sobrecarregada em suas atividades domésticas. Ambas as Escolas de Pensamento são igualmente legítimas no Islã e não existe razão para que apenas o entendimento que considera o trabalho doméstico um dever exclusivo da mulher prevaleça. 

Existe também o aspecto psicológico deste condicionamento ao trabalho feminino. Por conta desta interpretação restritiva, quando uma mulher cujo marido não possui condições financeiras excelentes se propõe a trabalhar, ela automaticamente levanta suspeitas de que o marido não é capaz de manter o sustento da família sozinho e precisa de sua ajuda. Considerando os aspectos culturais de algumas sociedades, esta é uma situação humilhante para o homem. Daí o fato de muitos homens se oporem à idéia de que suas esposas trabalhem fora e em muitos casos a própria mulher, por receio da opinião alheia. É comum mulheres que não trabalham alegarem, com um certo orgulho, que é porque "não precisam" se referindo é claro, à necessidade financeira. Estas atitudes não levam em conta que Khadija, primeira esposa do profeta (SAWS), despendeu de seus bens para despesas domésticas. O profeta a menciona com carinho em um de seus "hadiths":

"Ela acreditou em mim quando todos os outros não acreditaram. Ela confiou em mim quando todos me consideraram um mentiroso. Ela despendeu de seus bens quando eu era pobre. Ela me deu filhos quando outras não deram."

Portanto, não existe base para que a comunidade islâmica veja com reservas  a ajuda da esposa  nas despesas da família, mesmo que de maneira indireta, usando o dinheiro resultante de seu trabalho para suas despesas pessoais por exemplo, liberando assim o homem destes encargos. 

 Existem é claro maridos que colaboram, e se não chegam ao ponto de efetivamente realizar tarefas domésticas, pelo menos não fazem maiores exigências, mas estes homens infelizmente ainda são minoria em algumas comunidades islâmicas.

É importante destacar que a relação no casamento islâmico não é feita de regras e leis mas de entendimento e cooperação mútuos. Marido e esposa devem cooperar um com outro para o sucesso do casamento e felicidade de ambos. As bases desta cooperação podem ser livremente estabelecidas pelo casal, mas interpretações religiosas restritivas muitas vezes interferem no estabelecimento destas bases. O casamento e a forma como a relação entre marido e esposa devem se desenvolver no Islã estão bem definidos no Alcorão: 

"E entre Seus sinais está o de haver-vos criado companheiras da mesma espécie para que com elas convivais; e vos vinculou pelo amor e pela piedade. Por certo que nisto há sinais para os sensatos."

(Alcorão surata 30:21)

Portanto, amor e piedade devem ser as bases para o casamento no Islã e sendo assim, cabe ao marido não sobrecarregar sua esposa com exigências desnecessárias que tornem praticamente impossíveis para a mulher realizar seu desejo de desenvolver uma atividade profissional. Este desejo não tem que estar associado à uma  necessidade financeira. Existem outras necessidades igualmente legítimas como aplicar o conhecimento adquirido, prestar serviços úteis à comunidade,  ter independência financeira, etc. Não existe motivo para que o marido, apoiado em interpretações de alguns teólogos, impeça a esposa de satisfazer tais necessidades se ela assim o desejar e se sua atividade não traz prejuízos à educação dos filhos, razão maior para a recomendação da permanência da mulher em casa, e não a execução de tarefas domésticas.

 Aisha, esposa do profeta Muhamad (SAWS), além de possuir grande conhecimento religioso, participava ativamente na educação e reforma social da comunidade islâmica e tomou parte em batalhas. Homens e mulheres vinham de longe para se beneficiar de seu conhecimento. 

Existem muitos casos de mulheres muçulmanas da época do profeta (SAWS) que trabalhavam como parteiras, enfermeiras, comerciantes (como o caso de Khadija mencionado anteriormente), etc. e eram ao mesmo tempo religiosas e atentas às necessidades de suas famílias. Mas pertenciam à uma comunidade muçulmana que realmente aplicava os ensinamentos islâmicos na sua totalidade. Este é o verdadeiro Islã, que infelizmente parece estar esquecido na mente de muitos muçulmanos.

 

Elaborado por Maria C. Moreira, webmistress do Islamic Chat. 

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